quinta-feira, 15 de maio de 2008
Lançado na abertura do Festival de Cannes, Ensaio Sobre a Cegueira, do diretor brasileiro Fernando Meirelles, é uma adaptação do livro homônimo do Nobel de Literatura, José Saramago. No filme, uma única mulher (Julianne Moore) se vê imune aos efeitos de u
ma epidemia de cegueira que contagia habitantes de uma grande cidade.
Alegoricamente, essa sinopse diz bastante sobre a própria condição humana, onde não é possível enxergar o atual estado de coisas por que passa a nossa humanidade. O longa discorre sobre essa sensação de falsa “segurança” que eclipsa nosso espírito crítico e impede o “agir” ou, pelo menos, o “pensar”.
Há muito disso no nosso dia-a-dia, basta acompanhar os noticiários. Diariamente, somos embriagados com essa edição diária que decide o que é ou não importante divulgar. Ficamos cegos com a cobertura incessante de certos fatos, sem termos a possibilidade de oxigenar o espírito crítico. Como uma lavagem cerebral, a cegueira pode ser estimulada por quem quer nos manter cegos.
Essa cegueira também pode vir daqueles que utilizam os discursos emocionais de ícones já soterrados no nosso próprio imaginário, reforçando a ideologia das cores e bandeiras, sejam elas, verdes, vermelhas ou azuis. Inibir nossos sentidos, apelando para o irracional, é a melhor atitude para manter essa dominação. Politicamente, foi assim que se formatou essa velha idéia de “currais”.
Trazendo essa argumentação para a nossa realidade, em ares caicoenses ocorre muito disso. A cegueira (ou surdez) vem dos pronunciamentos contundentes de quem acredita que estamos no velho oeste americano, onde a força da oratória se justifica em tornar a tonalidade da voz um instrumento de dominação. Ou de quem apadrinha velhos senhores de engenho como os comandantes dos nossos destinos.
É esta a “cegueira” que Saramago e Meirelles observam que domina todos os horizontes e Caicó não está de fora. Enquanto não educarmos nosso pensamento e não criarmos cidadãos conscientes de sua importância social, continuaremos cegos e surdos, diante da pequenez dos que querem a perpetuação dessa cegueira.
Postado por RV
Acesse também o observatoriodecinema.blogspot.com
1 Comment:
Grande Raildon, saudações!
Quando você diz " A cegueira (ou surdez) vem dos pronunciamentos contundentes de quem acredita que estamos no velho oeste americano, onde a força da oratória se justifica em tornar a tonalidade da voz um instrumento de dominação." está se referindo a algúem especificamente?
O texto está muito bom! Mais uma vez, com racionalidade (diferente de alguns menbros deste blog) e com destreza, faz uma belíssima postagem!
Abraço!
Post a Comment